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SLOW FASHION

Em tempos fast, quando somos invadidos por imagens e fatos agressivos de todo gênero a todo instante, a moda faz do slow chic uma alternativa elegante e refinada de lifestyle. Com o guia La Parisienne, best-seller na França e nos Estados Unidos, Inès de La Fressange não só confirma essa nova tendência – que a exemplo do movimento gastronômico Slow Food é para quem entende e pode – como passa a ser referência, sobretudo na arte de viver, ao desfilar suas dicas estilo, beleza e decoração, além de fantásticos endereços.

A origem do slow chic é parisiense, enquanto o Slow Food nasceu na Itália. Mas, ainda que a “parisiense perfeita” seja uma ilusão, aprender a se tornar uma é negócio sério, que data de muitos séculos. Assim, com o livro lançado no ano passado e que já vendeu mais de 100 mil cópias em francês, La Fressange, 54 anos, ex-modelo de passarela, musa da Chanel 20 anos atrás, atual “rosto” da L’Oréal, mulher de negócios, consultora de imagem da Roger Vivier (do grupo Tod’s), designer e filha de marquês com uma Légion d’Honneur no  currículo, oferece novas dicas astutas de como agir tal qual uma verdadeira parisiense.

Ser parisiense, ela assegura, vai bem além dos códigos de como se vestir. É, antes de tudo, um estado de espírito, um sentido de liberdade. É fazer um mélange de épocas, de gente, de modas. A parisiense não é uma fashion victim. Ao contrário, ela não é vítima de nada, sendo ao mesmo tempo insolente, frívola e profunda. Um mix de Brigitte Bardot com Simone de Beauvoir. “No meu guia, não quis ditar regras, mas dar conselhos. Por exemplo, não ficar bloqueada nos 30 anos quando se tem 50”, ensina La Frressange. Nada mais slow que viver de acordo com a própria idade.

De belo formato à la “Moleskine gigante”, capa vermelho-Ming com jeito de scrapbook, a nova minibíblia de estilo de Inès de La Fressagenge, co-escrita por Sophie Gachet, é a melhor que já li do gênero. Ilustrada com desenhos da própria Inès e tendo como modelo, nas fotos, sua filha Nine, que parece Inès quando começou a carreira aos 17 anos, o guia é divertido e levemente esnobe, o que não faz mal nenhum no manual do slow fashion. Seu DNA baseia-se em seis pontos que La Fressange descreve com segurança. 1) Evite o total look. Quem souber misturar estilos e grifes ganha nota dez. Usar, por exemplo, uma it bag de ontem com um clássico e bom pulôver de cashmere denota muito mais talento que copiar, literalmente, os looks dos últimos desfiles. 2) A parisiense Rive Gauche é a antibling. Não parecer rica é o truque. Joias que brilham muito e logos não fazem seu gênero. Ela exige, antes de tudo, qualidade. 3) A parisiense adora descobrir novas grifes. Sobretudo se são criativas e acessíveis. Seu guarda-roupa se compõe habilmente de algumas “pechinchas”, de roupas originais compradas em viagens e de algumas peças de luxo. Ela não é da espécie que gasta todo seu salário para adquirir um must have caro, muito menos se estiver na lista de espera (“so vulgaire”, ela diria). Primeiro porque não tem meios, mas sobretudo porque ela acha que possui tanto talento quanto uma stylist – para que então desembolsar muito dinheiro por uma roupa que ela mesma poderia ter imaginado? Inès conta que a parisiense tem a arrogância de acreditar que não será jamais démodée. Ignora a moda, mas usa sempre um pequeno detalhe que demonstra o seu domínio das tendências. É o que faz seu charme. 4) Você nunca ouvirá uma parisiense reclamar que está com salto alto demais, com a saia curta, que seu vestido está justo. “O segredo do estilo é sentir-se bem na roupa.” Elas conhecem o próprio corpo, sabem o que lhes cai bem e o que corresponde à sua maneira de viver. 5) A parisiense ignora ídolos. Cada uma encarna seu próprio ícone de estilo. Admiram Jane Birkin e Charlotte Gainsbourg, que sempre conseguem o ambicionado look descolado, mas também podem ter como modelo uma amiga anônima. Seu ícone de moda não é necessariamente conhecido – aliás, quanto mais desconhecido, melhor. 6) A parisiense desconfia do “bom gosto”. Quem haveria de pensar que preto e marinho são cores que combinam entre si? Antes de Yves Saint Laurent, ninguém havia ousado o mix. Hoje esse duo faz sucesso nos ambientes em que a elegância é rainha. “É bom emancipar o gosto e aprender a tomar liberdades com as regras de moda. Inclusive das contidas neste guia”, adverte ela.

Slow chicdemais. É por tudo isso que, parafraseando Chanel, “as modas passam, e Inès permanece”.

Foto 1: Inès, na elegante escadaria do apartamento em Paris, onde vive com as duas filhas, Nine e Violette.
Foto 2: Na sala, savoir-faire e simplicidade.
Foto 3/4/5: Nine D’Urso de la Fressange, de 17 anos, parece-se com a mãe e posou com exclusividade para o guia, interpretando o estilo da perfeita parisiense.
Foto 6: Na capa da Madame Figaro, sem roupa aos 53 anos.
Foto 7: No último Festival de Cannes, usando Chanel Couture.
Foto 8: Com Carven, combinados com modelos Roger Vivier sem salto.

Revista Vogue Brasil nº 397 – setembro 2011 – Glamour em Foco

Costanza Pascolato
Postado em: 11/03/2015

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