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SEM A FEIURA HÁ BELEZA?

“Descobrimos como é divertido buscar a feiura, porque a feiura é mais interessante que a beleza. A beleza frequentemente é entediante. Todo o mundo sabe o que é a beleza.” Umberto Eco, em História da Feiura.

O lance é que todo mundo quer e tem que ser linda, fofa e adorável, isso se quiser ser feliz, competente, amada (afinal foi assim que ensinaram para gente, que beleza é fundamental, principalmente no mundo da moda). Você, eu e o patinho da fábula de Andersen, tadinho! Todos sabemos que é complicada, relativa e, às vezes, somente momentânea a rejeição pela aparência.

A primeira coisa que as meninas falam nas brigas do colégio é: VOCÊ É FEIA. E eu rapidinho aprendi a me defender respondendo: FEIA É VOCÊ. Até hoje no trânsito, por exemplo, onde esbravejo muito, ainda que de janela fechada, grito: FEIA! Acho que é uma coisa pesada dizer isso, mais que xingar de filha de qualquer coisa, chamar mulher de ‘feia’ é baixo calão total!

Ok! Feiura dói, mas nem sempre é o belo que atrai. O pintor flamenco Quinten Massys ficou célebre com sua obra “Condessa Feia” incontestavelmente horrenda. A modelo pode ter existido mesmo, pois alguns acreditaram na época ser essa pintura a caricatura de Margareth, Condessa do Tirol. Tem gente que acha a Rossy de Palma, a atriz espanhola, feíssima, mas a mulher está toda exótica numa campanha da Louis Vuitton.

Agora um caso verídico: tenho um amigo que me disse um dia desses que ele preferia namorar uma menina bem feia, assim mesmo, disse na lata. Segundo ele, se a moça em questão for “tipo desengonçada, estranha, freak, cabelo bagunçado, desproporcional, sabe? apaixono!”, palavras dele, juro. Então tá aí! Mesmo naqueles dias que você se achar uma feia bem horrorosa saiba que ainda assim pode ser que alguém esteja de olho em você.

Mas o que torna o feio bonito? Essa pergunta me ocorre agora, já que a mulher ser feia não está na aparência mas num “estado de espírito”, segundo a autora de um livro bem controverso: A Vida Sexual da Mulher Feia (2005, Agir, 136 págs.). Leia a bela resenha aqui no Digestivo Cultural.

Já pensou na possibilidades de um mundo com e sem beleza total nem que seja apenas na ficção científica? Você pode imaginar como seria a vida se todos nascessem feios e a beleza fosse algo adquirido depois dos 16 anos através de cirurgia plástica e obrigatória, imposta pelo governo? Teríamos uma igualdade inimaginável, uma outra forma de sociedade e comportamento. E criancinhas feias, dá pra imaginar nesse universo? E cidades específicas para os feios, outra para os recém-bonitos e uma para os bonitões consolidados?

Como toda beleza tem seu preço, seja na ficção ou na realidade, o valor dessa custa, como posso dizer, uma espécie e de lesão cerebral. Bonitos e lesados ou feios e conscientes. Essa é a premissa do escritor de Uglies (Feios) Scott Westerfeld que já publicou uma trilogia de livros filosóficos sci-fi sobre a beleza e a feiura, como elas impactam as sociedades (Pretties, Specials e Uglies).

O meu livro já encomendei na velha e boa Amazon, porque o tema me interessa bastante. Mas saibam que o livro já está virando roteiro de filme. A obra teve os direitos abocanhados por Hollywood e o filme tem estréia prevista para o final de 2011.

Liliane Ferrari
Postado em: 20/06/2011

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