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REVOLUÇÃO NOSTÁLGICA

Difícil não perceber a nostalgia como o fio condutor de algumas das coleções mais bem-sucedidas do verão – o nosso que já está quase no fim, e o europeu que ainda nem começou. Marcas como Alexandre Herchcovitch, Prada, Christopher Kane e Louis Vuitton, entre outras, resgataram o requinte na maneira de fazer a roupa e tudo o que provoca joie de vivre ao se vestir. Afinal, o que parece de pouca importância ou frívolo para alguns é exatamente o que faz rolar solto o prazer da confortante relação íntima entre você e sua roupa, num elo emocional que sempre seduz.

Adoro a ideia de que a próxima estação será neonostálgica, em especial pelo requinte e pela releitura de grandes momentos da moda. Nostálgica sim, mas sem ser vintage. Isso porque cada época é diferente e única em suas características e circunstâncias – e o que foi “melhor” ontem pode não passar de mera ilusão, a menos que ganhe musculatura através de releituras sofisticadas. Como a maneira subversiva de se vestir há muito deixou de ser bacana, a nostalgia, esse sentimento agridoce parcialmente desconhecido das novas gerações, substitui a rebeldia contracultural para ser um luxo, além de importante moeda que sofistica reinterpretações.

Nas novíssimas coleções, o delicado saudosismo começa em volumes e silhuetas. Mas ele nunca é literal. E nem de longe antiquado. A diferença vem do competente olhar de estilistas para os quais o passado é combustível para a elaboração do novo, full speed para o futuro. Na ciranda da moda, esse novo romantismo nostálgico e ornamental estreia sugerindo uma reação ao impacto influente e crescente do uso da tecnologia. A experiência da total imersão na internet, por exemplo, nos torna mais receptivos ao que é instintivo e pessoal, ao que nos emociona, deixando de lado o que é mais prático, uniforme e racional.

O resultado desse mergulho ao passado é bastante contemporâneo já que, apesar de reeditarem as elaboradas técnicas de alto artesanato, modelagem e costura, os estilistas também fizeram uso de revolucionárias ideias e matérias primas customizadas. Os primeiros sinais da neonostalgia puderam ser notados no line up elegante e luxuoso – e de surpreendente sobriedade – do desfile de verão de Alexandre Herchcovitch em junho passado, em São Paulo. Um olhar mais cuidadoso, entretanto, revela o lado provocante da coleção. Com vestidos construídos no brocado, nas organzas e no cetim de seda, num mix vintage e ao mesmo tempo atual, Herchcovitch escancara – num deslocamento de valores e num interessante exercício de inside out – todos os elementos que, na modelagem conservadora dos anos 1940/50, se escondiam sob a superfície. Pences, dobraduras, pregas, faixas e palas usadas internamente na época para modelar o corpo – e até tornar mais discreta a curvatura dos seios – são interpretados como adornos, aparecendo à luz do dia em complexa e crua harmonia para revelar uma linguagem utilitária e fetichista de originalidade singular. “Tive vontade de fazer roupa como antigamente, mergulhando no que era a construção camuflada da roupa”, disse Herchcovitch ao explicar a ironia de como a oculta técnica de arquitetura da roupa no passado adquire, no presente, status de adereço exposto, aproximando-se curiosamente ao que se tornou acabamento comum em roupas do streetwear contemporâneo.

Numa coincidência de tema e até de gama de cores, a coleção da Prada também explorou a middle-century nostalgia. Miuccia levou ao extremo as contradições entre kitsch e chique. Ela provocou choque intencional na altiva elegância retrô característica da Prada com a força provocante do que, nos anos 50 americanos, era considerado “cafona”. Com a desculpa de querer interpretar o que é “feminino” na linguagem atual, ironizou e lançou mão do “agradável-que-não-reclama-raciocínio”. Isso em maiôs de pin-up de cetim rebordado, vestidos, casacos e mantôs de “empetecação” luzidia, como o vistoso e sexy espalhafato de vestimentas destrippers de filmes B. Cereja do bolo, turbinou os looks com as cores vivas e chamativas dos plásticos e fórmicas da decoração típica dos diners de beira de estrada, além da iconografia transgressora de hot rods (os carros bizarros modificados com pinturas de flamas). O resultado é dos mais bem-sucedidos dos últimos tempos, apesar de sua extravagância nos calçados, saias e bolsas com aplicações figurativas do universo automotivo, estética pop inovadora e que, numa aparente contradição com o bom gosto tradicional, é calculadamente acessível.

Mergulhado no entusiasmo do momento pré-olímpico londrino, o desfile de Christopher Kane, com a modernidade de sua atitude athletic chic e imagem ultra-atual, foi citado como o melhor de Londres. O mix dos opostos deu as cartas mais uma vez, com resultado devastador. A velocidade parecia ser a força motora da apresentação e também a inspiração da silhueta geométrica e aerodinâmica, graças a competentes e articuladas dobraduras origami. Entretanto, o romantismo nostálgico do universo adolescente – com seus diários e scrapbooks recheados de adesivos e sonhos – foi quem teve maior ascendência no desfile. Esse romantismo de outrora inspirou tanto as cores refrescantes quanto a sequência de roupas feitas de organza tecnológica com 70% de alumínio, que, em diversas e impalpáveis camadas, aprisionavam uma multidão de flores plastificadas de colorido intenso, além de saias, vestidos e casacos bem curtos, feitos de tecidos brocados (reproduzindo papel de parede envelhecido e rasgado), definindo um luxo paradoxal, contemporâneo e discreto.

Last but not least, a coleção de Marc Jacobs para a Louis Vuitton foi um autêntico depoimento, expondo a nostalgia do impecável know-how da “idade de ouro” da alta-costura parisiense. Provou ser possível estar na vanguarda – exprimindo uma irônica interpretação da feminilidade exagerada que se alastrou nas passarelas – e, ao mesmo tempo, criar uma refrescante maneira de vestir, de delicada fragilidade. Com impecável perícia na modelagem, silhueta abreviada de óbvia riqueza e leveza, além da sensualidade de organzas, “bordado inglês”, faille perfurado e plumas, é altamente influente e desejável. Nada melhor para matar a saudade das coisas boas que queremos viver de novo.

Foto 1: Para a Louis Vuitton, Marc Jacobs resgatou o impecável know-how da alta-costura parisiense e provou ser possível estar na vanguarda mesmo quando se olha para o passado.
Foto 2/3: O romantismo nostálgico do universo adolescente – com seus diários e scrapbooks recheados de adesivos e sonhos – foi o principal destaque do desfile de Chris Kane.
Foto 4/5/6: Miuccia Prada levou ao extremo as contradições entre kitsch e chique. Cereja do bolo, turbinou os looks com as cores vivas e chamativas dos plásticos e fórmicas da decoração típica dos diners de beira de estrada.
Foto 7: Numa atitude ousada, Alexandre Herchcovitch escancara elementos que, na modelagem conservadora dos anos 1940/50, se escondiam sob a superfície, tais como pences, faixas e palas.

Revista Vogue Brasil nº 400 – dezembro 2011 – Glamour em Foco

Postado em: 09/12/2011

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