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PERFIL DE EMILIO PUCCI

Ao cruzar os salões do antigo palazzo da família Pucci em Florença, construído no século 16, é impossível não sentir o peso da tradição. Entre tapeçarias antigas e quadros da Renascença, outro detalhe salta aos olhos: os tecidos que cobrem os sofás e os tapetes de cores fortes, que roubam a cena com as estampas energicamente geométricas, coloridas e contemporâneas, os inconfundíveis desenhos de Pucci. Marquês, ele desenhava essas estampas uma a uma e a sensação de quem caminha pelos salões do palazzo é de que sua energia, seu joie de vivre e sua elegância se materializam no décor. Pucci assinava todos os desenhos com um simplês “Emilio”, seu prenome, escrito de próprio punho e na caligrafia que se transformaria no primeiro logo de prêt-à-porter da história.

O começo da carreira de Pucci aconteceu por acaso. Ele era um habilidoso esquiador, tendo participado até da equipe olímpica de seu país.  Depois da guerra, numa das temporadas de inverno numa elegante estação de esqui nos Alpes, o aristocrata Emilio mostrou que tinha habilidades desconhecidas ao criar para uma amiga um conjunto próprio para o esporte: calças elásticas justas, combinadas com uma parka, tudo muito diferente do que se usava nas pistas da época. Uma fotógrafa americana viu, gostou e capturou a imagem para a Harper’s Bazaar. Isso em 1947. Em pouco tempo, as department stores americanas estavam loucas por aquela roupa que parecia confortável e moderna.

A primeira loja Pucci foi aberta em Capri, onde o marquês e seus amigos costumavam passar as férias de verão. Antes das estampas caírem no gosto da América, ele fez peças de alfaiataria, mais descontraídas que o padrão vigente. Pouca gente lembra, mas a famosa calça capri foi invenção de Pucci e criada para facilitar a vida das moças e senhoras elegantes no sobe e desce das várias escadarias da ilha.  Pucci era um visionário tanto na vida pessoal quanto no trabalho. Ele entendeu antes de todo mundo, por exemplo, as vantagens do jérsei de seda, que com sua elasticidade evidente fazia com que as roupas não amassassem e fossem levíssimas – características importantes para a mulher de todos os tempos. Ficou famoso o desfile em que as modelos usando biquínis tiravam de uma sacolinha do mesmo tecido um chemisier estampado de jérsei de seda: elas vestiam aquilo com o prazer de estarem lindas e prontas para um coquetel, sem nenhum amassadinho.

Para a mulher da época, ainda condenada à cintura vespa imposta pelo new look do francês Christian Dior, Pucci representava a liberdade do movimento e da expressão. Foi o início do prêt-à-porter italiano que vinha para duelar com a alta costura francesa reinante na época. A vitalidade e a versatilidade da marca conquistaram rapidamente o jet set internacional. O grupo de fãs incluía Sophia Loren, Jackie Kennedy e Marilyn Monroe, que notoriamente quis ser enterrada em um seu vestido Pucci verde.

Quando passou pelo Brasil, em 1962, os negócios de Pucci nos Estados Unidos e na Europa estavam indo muito bem.  Aguçado entrepreneur, mesmo no auge, ele andava atrás de novos mercados.

Um tio-avô meu que vivia em Florença, Emilio Pallavicini, era amigo íntimo de Pucci.  Por isso, quem recepcionou e hospedou o estilista durante sua estada em São Paulo foi nonna Gabriella, que vivia no Brasil desde 1945. Um dia, na casa dela, ele viu um desenho colorido e perguntou quem o tinha feito. Vovó respondeu que a autora era sua filha, Costanza, minha mãe. O marquês fez de tudo para levá-la à Itália para desenhar estampas com ele, mas mamãe já estava noiva e não pôde ir. Não fosse isso, Pucci talvez tivesse mudado também os destinos da nossa família.

Eu o conheci só por telefone, em 1990, ano em que me casei. Mandei o convite do meu casamento e o marquês me ligou para dizer que não poderia comparecer porque estava muito doente. Pucci sofria de um mal que na Itália chamamos de “Fogo de Santo Antônio”, em que todo o corpo parece pegar fogo. Fiquei triste, ele era um mito para mim. Mesmo doente, foi muito gentil ao telefone e disse de forma carinhosa que iria mandar um de seus famosos foulards para se desculpar pela ausência. Uma semana depois, dentro de uma linda caixa turquesa, chegou um foulard de crepe de seda nas cores branco, cinza, turquesa e acqua, com a vista de Florença.

A partir da morte de Emilio Pucci, em 1992, vários criadores passaram pela maison, inclusive Christian Lacroix, Matthew Williamson e agora Peter Dundas, que trouxe de volta o elemento “it girl” à marca. Desde que foi comprada pelo grupo LVMH, em 2000, a marca vem abrindo novas boutiques no mundo inteiro. Todas com arquitetura moderna, em tons claros e neutros, em que destacam-se os desenhos coloridos do marquês. Laudomia, sua filha e diretora de imagem da marca, explica que o appeal internacional da marca vem da feminilidade, frescura e leveza das peças. Quando perguntei quem hoje substitui a jet setter da dolce vita dos anos 60, ela sorri e diz que a cliente é sempre a mesma mulher: “Ela adora as férias, tem muita personalidade, conhece o mundo, exibe grande estilo e ama a moda.”

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Consuelo Pascolato
Postado em: 21/02/2011

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