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PARIS EM CHAMAS

Um turbilhão de emoções marcou a última temporada de desfiles parisienses, com baixas de designers influentes, fashionistas dando show de moda de rua e a soberba ascensão de Haider Ackermann, estilista que conquistou aplausos inéditos.

Nunca uma temporada de pret-à-porter provocou tanta comoção quanto a do inverno 2011-2012. E não só por causa da moda. Foi o “momento babado dança das cadeiras” mais forte da cena fashion desde 1970. Mais que fatos individuais e isolados – e muito além das indiscrições e comentários pró e contra –, o atual cenário mostra que a indústria do luxo flexiona os músculos para enfrentar importantes mudanças, encarando novas tendências e avançando na disputa de novos mercados.

O moto-perpétuo dos acontecimentos teve início numa terça-feira, 1º de março. Foi quando a maison Dior dispensou John Galliano por ter feito comentários antissemitas em estado de evidente embriaguês – tudo registrado em vídeo, que se tornou viral na internet. Uma espécie de tsunami de fofocas varreu a “comunidade” fashion. Houve um momento de perplexidade: os desfiles das coleções da Christian Dior e do próprio Galliano seriam cancelados? Logo suspeitei que não. Seria a poderosa marca capaz de decepcionar a imprensa e, principalmente, sua fiel clientela? Nem pensar! Ainda mais com todo o barulho que o episódio gerou.

O desfile que a maison apresentou foi magistral em todos os detalhes. Numa tenda erguida nos jardins do Musée Rodin, antes da entrada das modelos, Sidney Toledano, CEO da Dior, apareceu na passarela fazendo longo discurso em francês sobre os valores que a empresa vem representando há mais de seis décadas. Sem nunca mencionar o designer pelo nome, chamou ao palco toda a equipe de petites mains (costureiras e artífices das roupas, mas não os assistentes de Galliano) para um grande aplauso. “Eles merecem, já que representam o coração da maison Dior, que bate oculto”, disse. O desfile foi tipicamente Galliano: cheio de brio e com tecidos, peles e detalhes primorosos. Três dias depois, num palacete gélido e luxuoso da Avenue Foch, a marca John Galliano fez várias apresentações íntimas em tom melancólico. Inspirados nos anos 30, os 20 looks apresentados são de inevitável glamour.

Ainda nos primeiros dias da movimentada estação, outra baixa causou perplexidade. Christophe Decarnin, diretor criativo da Balmain, não apareceu após o desfile sob alegação de que estaria sendo tratado por “exaustão e depressão”. Na passarela, o line-up revelou a influência da nova stylist de Decarnin, Melanie Ward, que substituiu Emmanuelle Alt, promovida a editora-chefe da Vogue Paris.

O público mais influente do planeta fashion, que enfrentou a avalanche de mudanças estimulando boatos e apostas sobre quem substituiria quem, estava vestido de maneira excepcional. Necessidade imprescindível nesse império das aparências, as maneiras de personalizar a moda nunca foram tão criativas, exibindo, antes mesmo das passarelas, tendências cativantes, originais. Se o cenário parecia sombrio para alguns profissionais, a moda na rua marcou presença pela individualização e pelo uso esperto de cores. Foi um espetáculo sedutor, que revela não só a força da informação cada vez mais veloz, acessível e diversificada, mas a necessidade de mudanças e aperfeiçoamento do foco por parte das grandes marcas.

Riccardo Tisci, da Givenchy, está entre os nomes mais comentados para substituir John Galliano na Dior. Desde 2005 ele tem revitalizado a marca com sua visão, imaginação e habilidade técnica. A coleção que desenhou para o próximo inverno é forte, fiel à dualidade sensual e subversiva que virou marca registrada da era Givenchy. Assim, feras se opõem a flores, o hard ao soft, peças básicas ao luxo fetichista. Sussurra-se que Tisci levaria consigo, se fosse para a Dior, a amiga Carine Roitfeld, icônica ex-editora da Vogue parisiense e image maker por vocação. Outro estilista bastante cotado para assumir o leme da Dior, Givenchy ou até da Chanel (segundo Karl Lagerfeld, seria seu herdeiro natural) é Haider Ackermann. Desconhecido do grande público, o colombiano treinado profissionalmente na Antuérpia mostrou coleção lírica que foi considerada por muitos “o” show da estação. O soberbo ritmo de sua passarela hipnotizou e, quando entraram as sublimes nuances de cor – que certamente serão muito influentes –, mereceu caloroso aplauso antes mesmo do fim da apresentação, coisa inédita em se tratando da blasé plateia parisiense. Com controle magistral da técnica, Ackermann combinou classe dramática com cool inefável e uma sensibilidade now em peças que, decompostas, irão se adaptar a um grande número de gostos. Belo domínio da linguagem de moda, sugestiva feitiçaria, tão necessária para provocar desejo hoje – e sempre.

Fotos: 1- No palco do desfile de inverno da Dior, toda a equipe de petites mains recebe os aplausos da platéia no lugar do deposto estilista. Foto 2- Haider Ackermann. Foto 3- Haider Ackermann e Givenchy. Foto 4 – Três dias depois da Dior, John Galliano apresentou um inverno de inevitável glamour para sua grife, ainda que em caráter íntimo, num palacete gélido e luxuoso. Fotos 5 e 6 – Se o cenário parecia sombrio para alguns profissionais, a moda de rua marcou presença pela individualização e pelo uso esperto das cores.

Postado em: 12/04/2011

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