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O OLHAR FEMININO

Força criativa mais inquieta do mercado, Miuccia Prada desfila, junto com Consuelo Castiglioni, Phoebe Philo e Stella McCartney, todo o poder e a influência das designers ao definir e dar sentido ao guarda-roupa contemporâneo

 

POR COSTANZA PASCOLATO

 

Duas italianas e duas inglesas lideram a criação da roupa feminina contemporânea de sucesso, sempre com narrativas estéticas que são verdadeiros antídotos contra estereótipos. Cada uma a sua maneira, elas enfrentam o desafio de filtrar pontos de vista fortes ou sensibilidades pessoais e originais para criar produtos que possam ser amplamente desejados e consumidos. Afinal, assim como o cinema e a arte contemporânea, a moda é uma indústria essencialmente criativa e estas designers se destacam inclusive pela evidente demonstração de que conhecem bem a história de sua própria disciplina.  Além de terem aprendido todas as sofisticações de seu ofício e de usarem experiências e sentimentos para inovar a maneira de vestir das mulheres, acompanhando assim a evolução de suas vidas em tempos recentes.

Profissionais do mundo todo são unânimes ao reconhecer a enorme influência de Miuccia Prada na moda. Muito criticada, mas nunca ignorada, ela é a força criativa mais inquieta do mercado. Com o marido Patrizio Bertelli, Miuccia criou a conceituadíssima Fondazione Prada de arte contemporânea e  nos ensinou a olhar para a moda de um jeito mais abstrato, da mesma maneira que se observa ou se avalia a arte. Mas não se trata do velho discurso de moda versus arte. Com seu design, ela sugere, ao longo dos anos, o desafiante tema de que “elegância” é conceito ultrapassado. E se esforça para criar a moda que defina uma nova linguagem para o corpo, mais ligada à maneira de como o gosto tem evoluído na cultura do que simplesmente à invenção de novas roupas. Trata-se de um percurso corajoso e arriscado  _ já que a sobrevivência das marcas depende de vendas_ e que até agora tem dado muito certo.

Como no recente desfile da Prada para a Primavera europeia de 2013, uma espécie de “detox fashion”. Após coleções coloridas, estampadas e maximalistas, que fizeram furor entre consumidoras e copistas, Miuccia dá um tempo e exibe um minimalismo japonista. “Quis ser vigorosa e séria,” disse, explicando a proposta cheia de contradições. Em clima moody, mostra silhuetas simples e curtas, meio pop 1960, com suas flores estampadas evocando Andy Warhol, feitas em luxuoso e rígido satin duchesse de seda pura, tecido típico de alta costura. Contraste de esplendor e modéstia também nos mantôs e estolas de vison, com mangas de quimono, ambos com insertos de ingênuas margaridas, em vermelho e branco (serão lançados ainda para o frio, em fevereiro nas lojas do Hemisfério Norte). Provocatória, exibe tudo sobre improváveis e enormes plataformas tipo gueixa e meias de judô em couro, mais japonismos à la Prada. Ornamentados com estupendos bijoux de esmalte, além de bolsas preciosas, túnicas e vestidos com dobraduras tipo origami sucedem-se entre colunas e passarela forradas do mesmo cetim duchesse da roupa. Mais um gesto esnobe, de sofisticação ardilosa.

Já a moda da italiana Consuelo Castiglioni, designer e proprietária da Marni, tem como característica a combinação de tecidos, adornos e estampas. Livre de limitações formais, sua roupa agrada a uma mulher criativa, que não tem medo de correr riscos. As silhuetas são lineares e retangulares, nunca skin-tight-body-hugging ou escancaradamente sexy. Longe do conservadorismo do estilo italiano, Castiglioni constrói um gênero de moda peculiar com a ajuda e consultoria dastylist e editora de moda da Vogue inglesa, Lucinda Chambers. O estímulo londrino, aliás, acrescentou-lhe uma dose de excentricidade, que evita banalidades. Para a Primavera 2013, as silhuetas são clean e esculpidas. Têm uma qualidade minimalista, com influência das formas de Christobal Balenciaga dos anos de 1960. Afastadas do corpo, são um exercício de volumes leves. Formas trapézio são reduzidas à essência, livres para expor a precisão do corte e a beleza dos tecidos. Pregas e peplums acrescentam sensualidade e os bijoux, que Castiglioni ajudou a tornar ummust da moda de nossos dias, são ousados e originais, desta vez na forma de animais de linhas Bauhaus, modernistas.

Inglesa, Phoebe Philo é a mais recente designer cult da indústria de luxo. Sua fama e sua legião de fãs começaram quando ela desenhou roupas ultra femininas para Chloé. Desde 2008, cria para Céline, com notável sucesso de crítica e público _principalmente nos acessórios, o que é vital, e que outros designers acham difícil fazer. Céline por Philo é hoje moda confiante, suntuosa na qualidade e ao mesmo tempo despojada. As philophiles, como são chamadas suas consumidoras, gostam das roupas da Céline porque sugerem novidade e são feitas para durar muito além do sistema de trends descartáveis. A última coleção, mostrada em outubro, surpreendeu pelo novo tom, mais solto, mais à vontade, diferente do habitual e exato minimalismo. Com um jeitão urbano desabado à maneira de Helmut Lang dos anos 1990, em branco e preto, Philo parece estar em busca de novos caminhos. Calças e tops com efeito de nó nos ombros e cintura, coletões-smocking, vestidos com mega decote em V coberto por tela e inacreditáveis sandálias Birkenstock e stilettos forrados de vison colorido,  revelam resultado menos assertivo do que o de costume. No showroom, nota-se que as peças _em cetim, gabardine e rústica tela de viscose_ têm acabamento cortados “a fio” (sem costura) ou desfiados. Espetaculares mesmo são os novos óculos, a bolsa tipo carteira macia e as incríveis clutches (que não desfilaram).

Alto astral, a coleção de Stella McCartney para a Primavera de 2013 demonstra que atitude e otimismo podem conviver na moda. Com silhuetas alongadas próximas do corpo mas não tão justas, mostra um novocolor blocking de formas arredondadas e elípticas nas saias e vestidos, nova alfaiataria para calças amplas, uma ótima interpretação da transparência (um dos hits da temporada), dando uma sensação de leveza aos blazers e tops de formas oversized. A expertise de McCartney nos trajes esportivos esteve presente, esboçada de maneira chic e inovadora, nossweatshirts e training pants. O sucesso de Stella não se baseia só nas roupas que faz. Sua imagem pública de mãe, mulher, ativista, vegan, etc., faz com que as mulheres se sintam à vontade e confiantes ao adotar suas propostas de estilo.

Todas estas mulheres são criadoras de uma nova era. Elas trabalham com a habilidade de pular de um estilo para o outro. Porque vestir-se hoje é praticamente uma performance. Uma atuação criativa e de alcance cada vez maior numa era do triunfo das imagens _ e muito aborrecida quando se torna repetitiva.

Texto: Revista VOGUE Edição n.412 Dezembro 2012

Foto: Consuelo Pascolato Blocker

Postado em: 12/03/2015

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