Compartilhe

FRENTE & VERSO

Os desfiles da alta-costura da recente temporada parisiense mostraram que algumas maisons francesas ainda praticam de maneira extraordinária e brilhante o alto ofício de um métier sem igual. Paradoxalmente, essas grifes e seus shows de couturetambém estabelecem um novo conceito do que é realmente moderno e relevante hoje. A verdadeira elegância está mais contida – com mais refinamento, graça e frescor – e vai na contramão da ostentação para determinar o novo “grande luxo” que, por ser raro e sutil, é essencialmente subversivo.

Alaïa, Valentino e Givenchy foram os assuntos que prevaleceram em todas as conversas. Após oito anos de ausência, Alaïa desfilou toda sua expertise, qualidade e a sofisticação autoral que tem aperfeiçoado durante sua carreira admirável. Resgatado à força dos bastidores pelo ministro da Cultura francês, Frédéric Mitterrand, o tímido Azzedine foi aplaudido de pé por dez minutos ao fim da apresentação. Fato absolutamente inédito. Na coleção, nota-se o foco rigidamente editado de um punhado de ideias que sempre foram suas e uma obsessiva atenção aos detalhes. Alaïa é conhecido também pela apreciação que tem pelo trabalho de Mme. Grès, chegando a emprestar, por exemplo, muitos vestidos de sua coleção particular para a deslumbrante exposição sobre a estilista atualmente em cartaz no Musée Bourdelle. Grès e Alaïa compartilham a mesma paixão pelo aperfeiçoamento das silhuetas – rigorosas e nítidas – e pela meticulosa qualidade. Assim, o trabalho de ambos tem uma incrível e misteriosa atemporalidade.

Na Valentino, Maria Grazia Chiuri e Pier Paolo Piccioli continuam fazendo um barulho danado. Desde 2008 no comando criativo da lendária maison, eles conseguiram, apesar das críticas, resgatar todos os elementos do DNA precioso e tradicional de Valentino – a feminilidade, a renda, a alfaiataria impecável. A dupla reflete de maneira delicada e muito bem definida a imagem das jovens mulheres que são as atuais herdeiras do estilo Valentino. Piccioli explicou o sentido que ele e Maria Grazia tentam expressar. “É graça e elegância que buscamos. Não são palavras muito usadas hoje em dia, mas pensamos que se vestir assim é de certa forma uma subversão, evocando um sentido de luxo e privilégio que não tem nada a ver com ostentação e alarde”, declarou. Nesta estação, a coleção de alta-costura da maison foi inspirada nos aristocráticos e elegantes refugiados que vieram da Rússia para Paris após a revolução, principalmente o príncipe Felix Yusupov e sua bela mulher, a princesa Irina Romanov, sobrinha do czar Nicolau II. A pureza e a simplicidade das formas contrastam com os majestosos tecidos e bordados que demandam centenas de horas de execução. A modernidade está no mix.

Conhecido como o príncipe darkda moda, Riccardo Tisci também citou “pura costura” como o tema-chave de sua contida e sublime coleção para a Givenchy, na qual os ateliês da marca trabalharam durante seis meses. “Pura, suave e frágil. Um sonho romântico”, definiu Tisci.  A coleção, toda branca de formas simplificadas – algumas resgatadas do sportswear–, tem a incrível beleza dos detalhes e a notável perfeição ressuscitada de outros tempos. “Procurei a luz na escuridão”, disse de suas requintadas roupas ultratrabalhadas que, como toda peça de couture, merecem ser vistas em 360°. Afinal, trata-se do ponto mais sofisticado do negócio da moda. Até Bernard Arnault, o mentor do luxo extravagante, após a morna recepção da coleção Christian Dior, em que faltou sutileza e virtuosismo para representar a locomotiva conceitual da marca, disse o seguinte: “São tempos de mudança. As palavras de ordem são: intimidade, habilidade e resgate da sofisticação de outros tempos”.

Revista Vogue Brasil nº 396 – agosto 2011 – Glamour em Foco

Costanza Pascolato
Postado em: 19/08/2011

Veja também