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FETICHE FASHION

Com apelo voluptuoso no estilo e muito marketing, o próximo inverno europeu abre uma temporada de erotização light com o talento de Miuccia Prada, as provocações de Marc Jacobs na Vuitton e a estreia da Mugler sob direção de Nicola Formichetti, o figurinista de Lady Gaga.

Numa formidável demonstração de estilo, cenografia e marketing, as marcas de luxo europeias recorreram ao fetichismo para inovar seus desfiles, garantindo assim impacto inédito e imediato. Tudo para estimular a libido a partir de roupas e acessórios que, apresentados de maneira arrebatadora, adquirem poderes quase mágicos, de apelo voluptuoso. São artigos concebidos para se transformarem em potentes armas de conquista, com o evidente propósito de provocar desejo e levar às alturas a autoestima de consumidoras de meio mundo.
Afinal, consciente ou inconscientemente, todas as mulheres pensam, quando se vestem, em seduzir suas plateias. Mas o que ainda poderia, em tempos de tantas ofertas, surpreender e cativar a ponto de levá-las a fazer verdadeiros “investimentos” para compor o próprio look? Em curiosa identidade de ideias, alguns dos mais talentosos e ousados estilistas e image makers do momento resgataram, cada um a sua maneira, o fetiche em versão fashion.

Do português arcaico, a origem da palavra fetiche vem de feitiço, bruxaria. Mas também define o charme, o fascínio, a atração. Como objeto, é a materialização desse poder mágico, sombrio, lascivo – e de magnetismo arrebatador. Mantidas as devidas proporções, e com transgressões mais amenas, um fetiche de erotização light, bem decorativa e fácil de adotar, dá o tom do próximo inverno internacional.
Miuccia Prada abordou a tese realizando sua habitual alquimia, colocando na passarela fetiches que traduzem o glamour feminino urbano e sofisticado como a pele, o couro de répteis preciosos e os megapaetês. Para dar uma dimensão mais jovial e moderna, ela recorreu a um jogo de conceitos contrastantes como perverso e ingênuo; elegante e kitsch. Como sempre, Prada atua com os opostos, fazendo o blasé parecer inocente – caso da silhueta rigorosa e geométrica típica dos anos 60 – para obter um resultado sempre inédito.

Às 9h da manhã do último dia de desfiles da temporada parisiense, Marc Jacobs foi fundo no mesmo argumento. Com notas esclarecedoras no release sobre o provocante tema, montou magnífico cenário para um brilhante e convincente diálogo moda versus fetiche. Inspirado no polêmico filme O Porteiro da Noite (1974), de Liliana Cavani, com Charlotte Rampling e Dirk Bogarde explorando o sadomasoquismo como atração fatal, Jacobs mostrou algumas roupas e grande número de acessórios que exploram e extrapolam o sentido da palavra fetiche. Ele disse que a ideia nasceu de conversa com Bernard Arnault, CEO do conglomerado LVMH, quando discutiam a obsessão das mulheres por bolsas. “E isso me fez pensar nas paixões”, declarou o designer. Com uma parafernália de objetos que são metáfora do universo de símbolos que provocam o “deslumbramento que escraviza”, Jacobs escalou um line-up ultraestelar de supertops, com Kate Moss fechando o desfile e ainda Naomi, Isabeli, Raquel Zimmermann. Estavam lá os espartilhos, o PVC e o couro pretos, os saltos vertiginosos nas botas amarradas com cadarços, sugestões de uniformes, meias desnudando o alto das pernas e muitos outros etcs. cabíveis. Todos esses recursos são alegorias da atração que corrompe e foram molduras ideais para as bolsas, nesta temporada uma multidão de interpretações da LV Lockit, de 1958, quase sempre presas aos pulsos por sofisticadas algemas. A bolsa, afinal, é a verdadeira protagonista da marca, que é campeã mundial de vendas.

Num outro front, sob direção artística de Nicola Formichetti – criador dos incríveis figurinos de Lady Gaga –, a Mugler ressurge das cinzas e volta às passarelas num desfile bem à imagem da cantora e atual sacerdotiza-mór do pop erotizado, fetichista e voyeurista. O show foi esperto e estimulante. Os materiais que provocam desejo irrefreável estavam todos lá, em modelagens a partir de ideias históricas de Thierry Mugler dos anos 80/90. A energia e a fama indescritível de Lady Gaga, “deusa androide pós-humana”, levaram, via comunicação digital, a estimados 115 milhões de page views do show em uma semana. Popularidade arrasadora, muito além da indústria da moda e bem interessante para a Clarins, fabricante de cosméticos que hoje, aliás, é proprietária também da Mugler. Angel, o perfume mais vendido do mundo, é de Mugler. Prova de que desfiles são feitos atualmente sobretudo para vender perfumes, e não roupa.

Fotos: Protagonistas absolutas da Louis Vuitton, as bolsas eram presas aos pulsos por sofisticadas algemas em desfile que fez ode ao fetichismo. Miuccia Prada colocou na passarela fetiches que traduzem o glamour feminino urbano e sofisticado como peles, couro de répteis preciosos e paetês. O desfile de Mugler tinha forte apelo comercial. Não à toa, seu Angel é perfume best seller há anos.

 

Revista Vogue Brasil nº 393 – maio 2011 – Glamour em Foco

Costanza Pascolato
Postado em: 04/05/2011

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