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A IDADE DA ELEGÂNCIA

Mostras extraordinárias como a que está em cartaz no Musée Bourdelle, em Paris, que apresenta até 28 de agosto uma exposição deslumbrante dedicada a Mme. Grès (1903-1993), costumam ser uma fonte incomparável de inspiração para designers, em especial num momento em que a moda precisa, além de surpreender, provocar imediato desejo de consumo. Paradoxalmente, ela também deve ser facilmente compreendida para conquistar os novos mercados. Tudo isso sem jamais perder a categoria nem a consistência, sem abrir mão de talento e inovação para continuar agradando à imprensa especializada, outra força que pressiona os estilistas. Haja criatividade! Até porque tudo parece já ter sido inventado no guarda-roupa contemporâneo.

Nesse contexto, lendários nomes do passado, como Yves Saint Laurent ou Cristóbal Balenciaga, não raro se transformam em objetos de grandes retrospectivas. Sob o patrocínio da Fundação Pierre Bergé-YSL, agora é a vez de Mme. Grès, considerada por seus pares um gênio tutelar da profissão. Por intermédio do todo-poderoso Didier Grumbach, presidente da Fédération Française de la Couture, fico sabendo que o governo francês se preocupa tanto com a imagem criativa do país no mundo que incentiva diretamente as marcas tradicionais e seus novos proprietários, ajudando a concretizar essas exposições, mesmo quando se trata de um talento espanhol como Balenciaga. São eventos fundamentais tanto para a alta moda parisiense quanto para a general knowledge de qualquer cidadão global. Memória pouca é bobagem.

Mme. Grès – cujo verdadeiro nome era Germaine Krebs – nunca escondeu que queria ser escultora: “Para mim é a mesma coisa trabalhar tecido ou pedra”. Sua busca e obra percorreram 50 anos. Durante a investigação, se deteve maravilhada diante da estatuaria helenística e das culturas orientais, chegando até o minimalismo modernista intransigente, do qual foi precursora na moda. Na exposição do Musée Bourdelle, as roupas esculpidas de Grès são apresentadas acompanhadas de esculturas, numa montagem sublime. Sintetizando a sua obra, alguém disse nos anos 80 que “ela é a encarnação da grande tradição da elegância francesa, quase convencional, uma forma de classicismo inevitável e ao mesmo tempo imperdível. Seu trabalho tem a qualidade de conter em si a semente de todas as revoluções de moda que ainda vão acontecer”.

Precursora do japonismo (Yohji Yamamoto fez uma homenagem a ela com esplêndido vestido de jérsei vermelho que foi exposto recentemente no Victoria and Albert Museum, em Londres) e do desconstrutivismo belga, Mme. Grès também antecipou o minimalismo, que agora seduz as marcas de elite. Mais conhecida por seu trabalho nos anos 30, sua obra, plástica e escultural, enfatiza o glamour reservado da sofisticada idade da elegância de ontem. Sem reproduções literais, algumas coleções para o próximo inverno europeu refletem a primorosa saudade dos costumes daqueles tempos. Elas capturam uma emoção e discreto distanciamento, que vai bem além das roupas. Note a atitude – cabelos, make, cores, maneira de carregar a bolsa – e as roupas pseudoclássicas flagradas no backstage da Prada. É o passado com o olhar de hoje.

O mesmo vale para o fantástico trançado da bolsa de couro que Nicolas Ghesquière criou para a Balenciaga, inspirado no drapeado-trançado típico de Mme. Grès, originalmente apresentado em um dos seus históricos vestidos-coluna. O movimento de recortes da saia de outro desses vestidos serviu de referência para uma rigorosa e minimalista saia esculpida em lã pesada pela estilista de vanguarda sueca Ann-Sofie Back.

Lembrança de figurino hollywoodiano, um outro acessório inventado por Miuccia Prada, agora para a Miu Miu, enfatiza os quadris, equilibrando a largura dos ombros aumentados no estilo Joan Crawford. Finalmente, olhando imagens de alta-costura da fotógrafa Louise Dahl-Wolfe em estações de esqui chiques dos anos 50, Raf Simons criou roupas para a Jil Sander entre a couture e o esporte, com requinte e modernidade. Todos esses trabalhos, delicada ourivesaria sutilmente sintonizada, são o testemunho de que, assim como na ciência e na filosofia, elegância significa uma economia teórica: o que é menos – e primorosamente pensado e feito – é realmente mais.

Revista Vogue Brasil nº 395 – julho 2011 – Glamour em Foco

Costanza Pascolato
Postado em: 01/07/2011

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